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Híbridos de milho para silagem: as diferenças que fazem a diferença

Jackson Oliveira - Pesquisador da Embrapa Gado de Leite


A suplementação das pastagens durante a época da seca, ou do frio nas regiões no extremo sul do país, é um assunto que continuará sempre sendo objeto de preocupação por parte dos produtores. Por mais que se faça melhoramento de forrageiras para pastagem a produtividade dela será menor naqueles períodos, fazendo com que o produtor tenha que suplementa-la com um outro tipo de volumoso. Os suplementos mais comuns são as silagens, os fenos e a cana de açúcar picada e misturada com uréia. Esses suplementos têm custos e valores nutritivos diferentes sendo, o uso de cada um, decisão de cada produtor.

O feno, de gramínea ou leguminosa, é geralmente caro, tanto para ser comprado como para ser produzido na propriedade. Além da exigência de um maquinário específico e de alto custo há uma dependência do clima para conseguir feno de boa qualidade.
A cana com uréia é uma alternativa muito interessante e sua utilização aumentou muito nos últimos 10-15 anos. Suas limitações estão na operacionalização, principalmente em rebanhos grandes, devido à falta de máquinas para colher e picar a cana sem prejudicar a rebrota, e no alto teor de fibra que limita a taxa de passagem do alimento pelo trato digestivo e, conseqüentemente, o consumo. Essa desvantagem é relevante apenas em animais de maior produção, cujo consumo é alto e necessitam de volumosos com fibras de melhor qualidade. As pesquisas com cana forrageira têm se intensificado e espera-se que em médio prazo tenhamos cultivares com melhor qualidade de fibra e máquinas que facilitem a sua colheita.

A silagem é outra opção de suplemento volumoso amplamente utilizada em todo o Brasil. Elas são feitas principalmente de gramíneas como milho, sorgo, capim elefante e outros capins, geralmente o excedente nas pastagens durante o período de verão. O material da lavoura ou da pastagem é colhido, picado e armazenado sob compactação dentro dos silos onde, sem a presença do ar, sofre fermentações específicas que irá conserva-lo até que seja fornecido aos animais. O custo de produção, a qualidade da fermentação e o valor nutritivo da silagem são muito variáveis e dependem de uma série de fatores, principalmente o tipo do material a ser ensilado e as técnicas e cuidados utilizados no processo de ensilagem.

No Brasil, o milho é a cultura mais utilizada como silagem pelo fato de ser facilmente cultivado em todo o país, ter alta produtividade e facilidade de fermentação dentro do silo, além de sua silagem ter um bom valor energético e ser de grande consumo pelos animais. Essas duas últimas características são especialmente importantes já que permitem redução no uso de concentrados, diminuindo o custo da alimentação.

Em 1996, no último censo agropecuário realizado pelo IBGE, a área plantada com milho para silagem aproximava-se de 360 mil hectares. Hoje, dados não oficiais apontam para uma área anual entre 1,0 e 1,2 milhões de hectares, dependendo do aquecimento dos setores produtivos do leite e da carne. O aumento da área plantada nesses últimos 10 anos foi conseqüência da mudança na política de preço do leite que, desencadeou mudanças na estrutura produtiva do setor. Hoje as médias de leite por fazenda, leite por vaca e de vacas em lactação por fazenda são maiores do que no passado. Somado a isso, a competitividade no setor e o preço diferenciado, entre outros fatores, fizeram com que o nível de administração nas propriedades tendesse a melhorar. Hoje, nas propriedades mais competitivas, a diferença entre o volume de leite produzido no período das águas e da seca é bastante reduzido, ou em alguns casos, nulo. Isso é conseqüência, principalmente, de uma política de suplementação volumosa com alimentos de melhor qualidade, principalmente a silagem de milho.

O custo da silagem de milho está diretamente relacionado com a produtividade da lavoura. Afinal, quanto maior a produtividade menor será o custo de cada tonelada produzida. A produtividade, em termos de toneladas de massa verde por hectare, é um dos parâmetros que o produtor deve procurar ao escolher um híbrido de milho para silagem. Ela está diretamente relacionada com o preparo do solo, correção e adubações, tratos culturais, época de plantio, etc., mas, também, com o híbrido utilizado.

Existe no mercado um grande número de híbridos e variedades disponíveis para o produtor. A produtividade de cada um é o resultado da combinação entre sua carga genética e o ambiente onde ele é plantado. Se não fosse assim bastaria, grosseiramente falando, um único híbrido de milho para todo o país. Em outras palavras, um híbrido com alta produtividade em Morrinhos, GO, região de cerrado e com altitude de 780 m, pode não ter bom desempenho em Paracatu, MG, também no cerrado e, praticamente, na mesma altitude. A escolha do produtor deve, então, começar, por híbridos adaptados a sua região. Como identificar esses híbridos? Se a região produz milho grão, os híbridos mais utilizados serão, com certeza adaptados. Entretanto, esses híbridos utilizados para grão podem não ser os mais interessantes para uso na forma de silagem. Primeiro, porque apesar de serem adaptados e com uma boa produção de grãos, mas não se sabe se são, também, bons produtor de massa total por hectare. Em segundo lugar, o valor nutritivo das silagens feitas a partir desses híbridos pode não ser a melhor em termos de valor nutritivo e consumo pelos animais.

O valor nutritivo da silagem de milho está relacionado com basicamente três características - a porcentagem de grãos presente na massa total colhida, o tipo de endosperma presente no grão e a qualidade da fibra. A primeira característica está presente nos híbridos reconhecidamente adaptados à região.

O tipo de endosperma é importante porque está relacionado com o aproveitamento do amido pelos animais. Quanto mais duro ou vítreo o endosperma do grão, mais lentamente a energia presente no amido é absorvida pelos animais. Híbridos de milho com endosperma de baixa vitreosidade, também chamado de endosperma macio ou dentado, não é comum nos nossos híbridos pelo fato da maioria deles, para atender a indústria, ter endosperma duro ou com alta vitreosidade. Aproximadamente 5% das cultivares disponíveis no mercado são de endosperma com baixa vitreosidade. Mesmo assim, a baixa vitreosidade que vemos nesses poucos híbridos é alta se comparada com as dos híbridos de milho recomendados para silagens em outros países.

A terceira característica, a qualidade da fibra é importante porque é um componente da planta que, além de ter efeito no conteúdo energético do volumoso, pode interferir na taxa de passagem e no consumo. Quanto mais digestível for a fibra, mais rapidamente ela é degradada dentro do rúmen, mais rapidamente libera energia para os microorganismos e mais rapidamente passa para o intestino delgado, fazendo com que o animal volte a consumir mais alimento. Se retirarmos os grãos da planta de milho, o que sobra, aproximadamente 70%, é constituído em grande parte, de material fibroso. Caules, folhas, sabugos e palhas têm alta porcentagem de fibra e qualquer melhoria na digestibilidade dessa fibra terá reflexos no valor nutritivo da silagem.

Ao observar duas lavouras de milho, uma ao lado da outra, utilizando híbridos diferentes, pode-se identificar, dependendo da magnitude das diferenças, qual delas tem maior produtividade de massa total, ou mesmo de grãos. Para isso compara-se a altura das plantas, espessura dos caules, largura e comprimento das folhas, número e tamanho das espigas, etc. O que não se pode afirmar é qual delas terá silagem de melhor qualidade. Sem análises específicas é impossível conseguir essa informação. Tipo de endosperma, porcentagem de grãos e qualidade da fibra atuam em um mesmo parâmetro nutricional que é a digestibilidade da forragem produzida na lavoura. Quanto maior a digestibilidade melhor a eficiência com que o animal transformará esse alimento em leite., ou seja, melhor a conversão alimentar. Um bom híbrido de milho para silagem deve, então, combinar produtividade e valor nutritivo, ou seja, ter boa produção de massa total por hectare, ter alta porcentagem de grãos nessa massa, ter o endosperma dos grãos com baixa vitreosidade e fibra com boa digestibilidade.

Quanto melhor o suplemento volumoso fornecido maior será a economia de concentrado.
O produtor enfrenta muitas dificuldades para escolher o híbrido que vai usar para silagem. Em primeiro lugar pela propaganda que as empresas fazem, cada uma procurando ressaltar as vantagens e os diferenciais de seus produtos. Em segundo, por que o número de híbridos é muito grande e a permanência da maioria deles no mercado é muito curta. Anualmente híbridos são retirados do mercado e outros novos são lançados, fazendo com que o produtor nem chegue a conhecer seus desempenhos.

A Embrapa Gado de Leite, na tentativa de facilitar a escolha dos produtores, realiza, desde 2000, avaliações de cultivares de milho para silagem em várias bacias leiteiras, distribuídas em três grandes redes, Sul, Sudeste e Brasil Central. Os parceiros nessas avaliações são as empresas de semente, instituições de ensino e pesquisa e as cooperativas locais. No trabalho são coletados dados de produtividade e amostras de silagem que servem para avaliar o valor nutritivo dos híbridos. Os resultados são divulgados anualmente na home page da Embrapa Gado de Leite (www.cnpgl.embrapa.br) e beneficiam tanto as empresas participante, já que trazem informações para auxilia-las na estratégia de pesquisa e de distribuição de seus produtos, como as cooperativas que terão subsídios para decidir que sementes comprar e repassar aos produtores de sua região. Devido ao crescimento do mercado e às exigências dos produtores, algumas empresas de semente no Brasil já estão iniciando ações para desenvolver híbridos de milho com características melhoradas para uso como silagem. Espera-se, assim, que a médio prazo outras empresas invistam nesse tipo de desenvolvimento, fazendo com que os híbridos disponíveis sejam cada vez mais competitivos.





Texto inserido em 4/10/2007.




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