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Resíduos de antibióticos no leite: um problema que tem solução
Maria Aparecida V. Paiva Brito
Maria Aparecida V. Paiva Brito pesquisadora da Embrapa Gado de Leite.
O leite é considerado o alimento mais perfeito da natureza. Apresenta uma composição rica em proteínas, vitaminas, gordura, carboidratos e sais minerais (principalmente cálcio), essenciais aos seres humanos. É produzido durante a lactação na glândula mamária da vaca, a partir de elementos que passam do sangue para as células especializadas da glândula. Durante este processo podem passar também medicamentos ou drogas veterinárias que foram administrados às vacas para o controle de alguma doença. Portanto, sempre que se precisar medicar ou administrar uma droga à vaca leiteira, deve-se estar alerta para a possibilidade de aparecimento de resíduos no leite. Prejuízos para a indústria e problemas para a saúde O principal problema para a indústria é a inibição de culturas lácteas sensíveis utilizadas na fabricação de queijos, iogurtes e outros produtos fermentados. Outros problemas são a formação de odores desagradáveis na manteiga e no creme. A pasteurização tem pouco ou nenhum efeito sobre o conteúdo de resíduos de antibióticos do leite.
Os problemas ligados à saúde pública se devem à possibilidade de desenvolvimento de reações alérgicas ou tóxicas nos indivíduos que ingerem o leite contaminado com os resíduos de antibióticos.
As reações alérgicas se manifestam, geralmente, como urticárias, dermatites ou rinites e asma brônquica. São relacionadas principalmente com as penicilinas, mas tetraciclina, estreptomicina e sulfonamidas podem também ter essa ação.
Em 1969, a Organização Mundial da Saúde propôs que os limites para penicilina em leite de consumo humano não deveria exceder 0,006 mg/mL. Nos países da Comunidade Européia, o nível máximo permitido de 0,004 mg/mL foi introduzido em 1985. No Brasil, a Instrução Normativa 51, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que trata dos requerimentos técnicos para o leite, estabelece que o leite deve ser livre de resíduos de antibióticos e de outros agentes inibidores do crescimento microbiano.
Reações tóxicas são relacionadas a alguns antimicrobianos com potencial carcinogênico, isto é, que podem desenvolver tumores em animais de laboratório (ex. sulfametazina, nitrofuranos) ou dar origem a alterações hematológicas em indivíduos susceptíveis (cloranfenicol). Por isso não se admitem resíduos dessas substâncias no leite, e elas são proibidas para tratamento de vacas leiteiras.
Período de carência para o consumo do leite O aparecimento de resíduos de antibióticos no leite geralmente se dá após o tratamento de vacas em lactação por problemas de mastite, metrite ou outra doença infecciosa, ou como resultado do tratamento no início do período seco para controlar mastite. O tratamento para mastite tem sido o principal responsável pelos resíduos no leite. Mesmo após a aplicação do antibiótico em somente um quarto mamário, ocorre o aparecimento de resíduos no leite dos que não foram tratados. Isto se deve à absorção do antibiótico, que passa para a corrente sangüínea e daí chega aos outros quartos mamários, contaminando todo o leite da vaca.
Chama-se período de carência o prazo de eliminação do antibiótico no leite, após a última aplicação. Este período varia de produto para produto, e de acordo com a via de aplicação (intramamária, intramuscular ou intravenosa). Sempre que um antibiótico é recomendado para tratamento de vacas em lactação, deve-se estar atento para o período de carência. Isto significa que neste período todo o leite da vaca tratada deve ser retirado do consumo.
Cuidados para se evitar resíduos de antibióticos no leite 1. Identificar os animais tratados e ordenhá-los separadamente. Assim, não há risco de mistura acidental do leite contaminado com o restante do leite do rebanho.
2. Respeitar rigorosamente o período de carência do antibiótico aplicado. Antibióticos que não trazem esta informação não devem ser usados para tratamento de vacas em lactação.
3. Evitar tratamento da mastite subclínica durante a lactação, pois aumenta a possibilidade de aparecimento de resíduos no leite. Além disso, o tratamento feito no início do período de secagem da vaca apresenta maior taxa de cura.
4. Evitar aumentar ou reduzir a dosagem recomendada na bula. Por exemplo, a bisnaga ou seringa para aplicação intramamária deve ser aplicada integralmente em um quarto mamário, e não dividida para dois ou mais.
5. Evitar o uso de mais de um antibiótico diferente no mesmo tratamento. Isto pode aumentar o período de excreção de resíduos e alterar o prazo de retirada do leite para consumo.
6. Não usar preparações de antibióticos recomendados para início do período seco em vacas em lactação, porque as primeiras persistem por mais tempo no úbere.
7. Controlar a mastite com a adoção de medidas preventivas e de higiene: ambiente limpo para as vacas, manutenção e limpeza adequadas dos equipamentos de ordenha.
8. Observar cuidados rigorosos de higiene na aplicação intramamária de antibióticos: as tetas devem estar limpas, secas e previamente desinfetadas. As cânulas de aplicação devem estar completamente limpas e não devem ser reutilizadas. Isto evita que o próprio tratamento seja uma fonte de infecção com microrganismos do ambiente.
Texto inserido em 4/10/2007.
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